Por que maturidade não significa eliminar nossas contradições, mas aprender a organizá-las ao redor daquilo que realmente importa.
Há algo curioso em um átomo.
Quando olhamos para uma representação dele, podemos ter a impressão de uma pequena estrutura perfeitamente organizada: um núcleo ao centro, elétrons ao redor, tudo ocupando seu devido lugar.
Mas a realidade é muito menos imóvel do que a imagem sugere.
Há energia.
Movimento.
Interações.
Forças.
Estabilidade não significa ausência de movimento.
Talvez seja justamente aí que essa imagem possa nos ensinar alguma coisa sobre a vida.
Porque também carregamos forças diferentes dentro de nós.
Desejamos avançar e descansar.
Pertencer e preservar nossa autonomia.
Ser reconhecidos e não depender da aprovação.
Construir segurança e experimentar o desconhecido.
Organizar e improvisar.
Amar e permanecer inteiros.
Durante muito tempo, podemos imaginar que amadurecer significa finalmente resolver essas contradições.
Como se algum dia chegássemos a um estado em que tudo dentro de nós apontasse para a mesma direção.
Talvez esse dia nunca chegue.
E talvez não precise chegar.
Talvez maturidade não seja viver sem contradições.
Talvez seja possuir um centro capaz de sustentá-las.
A vida entre polos
Uma das ideias apresentadas pela tradição hermética é o princípio da polaridade.
No Caibalion, ele é expresso pela ideia de que aquilo que percebemos como opostos pode, em determinadas situações, representar extremos de uma mesma natureza.
Calor e frio.
Luz e escuridão.
E, quando transportamos essa ideia com cuidado para a experiência humana, encontramos algo familiar.
Coragem e medo.
Autonomia e vínculo.
Razão e emoção.
Ordem e caos.
Ambição e contentamento.
Força e vulnerabilidade.
Nossa primeira tendência pode ser escolher um lado.
Se a vulnerabilidade nos machucou, tentamos tornar-nos fortes.
Se o caos nos assustou, buscamos controle.
Se depender de alguém nos feriu, transformamos autonomia em autossuficiência.
Se a emoção nos confundiu, tentamos viver apenas pela razão.
Mas toda vez que tentamos construir nossa identidade eliminando um dos polos, alguma coisa parece ficar para trás.
Porque talvez o problema nunca tenha sido a existência dos dois lados.
Talvez tenha sido nossa dificuldade de sustentar a tensão entre eles.
Você não precisa eliminar uma parte para integrar a outra
Há uma diferença entre integração e domínio.
Dominar uma emoção significa tentar submetê-la.
Integrá-la significa reconhecer que ela existe, compreender o que carrega e decidir qual lugar terá em nossa vida.
Posso sentir raiva sem transformar a raiva em crueldade.
Posso sentir medo sem entregar ao medo minhas decisões.
Posso desejar reconhecimento sem fazer da aprovação o fundamento da minha identidade.
Posso desejar prosperidade sem transformar dinheiro na medida do meu valor.
Posso amar profundamente sem pedir ao outro que sustente aquilo que preciso construir dentro de mim.
Talvez uma das tarefas da maturidade seja justamente esta:
permitir que nossas diferentes partes tenham voz sem entregar a nenhuma delas o trono.
Nem tudo o que existe dentro de nós precisa ser eliminado.
Mas também:
nem tudo o que existe dentro de nós precisa ocupar o centro.
Mas existe outro problema: nós oscilamos
Reconhecer a existência dos polos ainda não explica completamente nossa experiência.
Porque não permanecemos sempre no mesmo ponto entre eles.
Nós nos movemos.
Há períodos de expansão.
E períodos de recolhimento.
Momentos de confiança.
E momentos de dúvida.
Dias em que queremos companhia.
E outros em que precisamos ficar sozinhos.
Períodos de enorme produtividade.
E momentos em que o corpo e a mente pedem descanso.
É aqui que outra ideia hermética se torna interessante: o princípio do ritmo.
Ele propõe que há movimentos de fluxo e refluxo, avanço e retorno, ascensão e queda.
Independentemente de aceitarmos o hermetismo como filosofia, a imagem do ritmo descreve algo facilmente observável na experiência humana:
a vida não permanece parada.
E nós também não.
O engano do equilíbrio estático
Talvez por isso a maneira como normalmente imaginamos equilíbrio seja problemática.
Pensamos em equilíbrio como um ponto perfeito:
50% razão.
50% emoção.
Trabalho na medida certa.
Descanso na medida certa.
Desejo na medida certa.
Tudo distribuído harmoniosamente.
Mas a vida raramente permite essa geometria.
Há momentos em que um filho precisará de muito mais de nós.
Há períodos em que um projeto exigirá dedicação extraordinária.
Haverá épocas de recolhimento.
Outras de expansão.
Momentos de construir.
Momentos de preservar.
Momentos de avançar.
Momentos de esperar.
Talvez equilíbrio não seja permanecer no meio.
Pense em alguém andando de bicicleta.
O ciclista não permanece perfeitamente imóvel sobre duas rodas.
Seu corpo realiza pequenos ajustes continuamente.
Ele responde à velocidade.
À inclinação.
Ao terreno.
À curva.
Ao vento.
E justamente porque consegue ajustar-se, permanece de pé.
Equilíbrio não é ausência de movimento.
É capacidade de reorganização sem perda de direção.
O pêndulo e o ponto de sustentação

Existe outra imagem que pode nos ajudar.
Imagine um pêndulo.
Sua extremidade se movimenta de um lado para o outro.
Quanto maior a oscilação, maior a distância percorrida.
Mas todo esse movimento depende de um ponto de sustentação.
O objetivo dessa imagem não é afirmar que existe dentro de nós algum lugar psicológico absolutamente imóvel.
Somos seres vivos.
Mudamos.
Aprendemos.
Reavaliamos.
Mas a metáfora nos oferece uma pergunta importante:
A partir de onde você atravessa seus movimentos?
Porque uma coisa é oscilar.
Outra é ser levado por cada oscilação.
Quando alguma coisa externa ocupa o centro
Talvez possamos descobrir nosso centro observando aquilo que possui o poder de desorganizar toda a nossa vida quando é ameaçado.
Se minha identidade está organizada ao redor da aprovação, uma crítica pode tornar-se muito maior do que uma crítica.
Ela ameaça meu centro.
Se meu valor está organizado ao redor do desempenho, um fracasso deixa de significar:
“algo que fiz não funcionou.”
E passa a significar:
“eu não tenho valor.”
Se dinheiro ocupa o centro, perda financeira pode tornar-se perda de identidade.
Se uma pessoa ocupa o centro, qualquer mudança na relação pode parecer uma ameaça à própria existência.
Se aparência ocupa o centro, envelhecer torna-se mais do que uma transformação do corpo.
Tudo aquilo que colocamos no centro recebe um enorme poder sobre nós.
E talvez algumas coisas sejam importantes demais para serem desprezadas…
mas instáveis demais para ocuparem esse lugar.
Então o que deveria estar no centro?
Talvez essa seja a pergunta mais difícil.
Porque seria confortável encontrar uma resposta pronta.
“Coloque seus valores no centro.”
Parece correto.
Mas quais valores?
Escolhidos por quem?
Quantas coisas que chamamos de princípios são apenas expectativas que recebemos da família, da cultura, do medo ou da necessidade de aprovação?
Até nosso centro precisa ser examinado.
Talvez ele seja construído lentamente por aquilo que escolhemos conscientemente preservar:
valores que foram testados pela experiência,
princípios que continuamos reconhecendo mesmo quando nos custam alguma coisa,
caráter construído pelas escolhas repetidas,
e consciência suficiente para continuar perguntando se aquilo que nos orienta ainda merece nos orientar.
Por isso centro não significa rigidez.
Uma árvore possui raízes.
Mas continua crescendo.
Talvez conosco aconteça algo semelhante.
Precisamos de raízes profundas o suficiente para não sermos carregados por qualquer vento.
E flexibilidade suficiente para continuarmos crescendo.
O centro também pode amadurecer
Há uma tentação escondida na ideia de “encontrar o centro”.
Imaginar que um dia finalmente descobriremos quem somos, quais são nossos valores, o que queremos…
e então permaneceremos assim.
Mas consciência não funciona dessa maneira.
Aquilo que considerávamos coragem aos vinte anos talvez revele impulsividade aos cinquenta.
Aquilo que chamávamos de bondade pode revelar uma antiga necessidade de aprovação.
Aquilo que chamávamos de independência talvez escondesse medo de depender.
E aquilo que chamávamos de ambição talvez estivesse tentando provar alguma coisa para alguém que já nem está presente.
O centro não precisa mudar a cada vento.
Mas precisa permanecer acessível à consciência.
Caso contrário, estabilidade transforma-se em rigidez.
Princípios tornam-se dogmas.
Identidade transforma-se em prisão.
Maturidade talvez seja aprender a distinguir:
aquilo que precisa permanecer
de
aquilo que apenas temos medo de abandonar.
Centro não elimina movimento
Talvez agora possamos retornar à imagem com que começamos.
O objetivo nunca foi construir uma vida imóvel.
Não queremos deixar de desejar.
De amar.
De conquistar.
De experimentar.
De arriscar.
De sentir medo.
De sentir raiva.
De mudar de ideia.
De atravessar períodos de caos.
Tudo isso faz parte do movimento de estar vivo.
O problema começa quando cada movimento assume temporariamente o comando de toda a estrutura.
Quando estou com raiva, sou minha raiva.
Quando estou com medo, sou meu medo.
Quando fracasso, sou meu fracasso.
Quando sou admirado, sou a admiração que recebo.
Quando alguém parte, alguma coisa em mim acredita que também deixou de existir.
Um centro não impede essas experiências.
Ele oferece um lugar a partir do qual podemos atravessá-las.
Talvez seja isso que significa estar centrado
Não significa estar sempre calmo.
Não significa nunca se contradizer.
Não significa controlar todas as emoções.
Não significa permanecer exatamente no meio.
E certamente não significa tornar-se indiferente ao mundo.
Estar centrado talvez seja conseguir perceber:
Estou com medo — mas o medo não precisa decidir sozinho.
Estou com raiva — mas a raiva não precisa governar.
Quero muito isso — mas meu desejo não precisa determinar meu valor.
Estou sofrendo — mas meu sofrimento não contém toda a verdade sobre quem sou.
As forças continuam existindo.
O pêndulo continua oscilando.
A vida continua acontecendo.
Mas existe alguma coisa organizando o movimento.
Da polaridade ao centro
Talvez possamos resumir essa jornada assim:
Polaridade
Existem forças diferentes em mim.
↓
Ritmo
Eu me movimento entre essas forças.
↓
Integração
Não preciso destruir uma delas para permanecer inteiro.
↓
Centro
Preciso descobrir o que merece organizar todas elas.
↓
Direção
Posso me mover sem entregar minha vida a cada movimento.
Talvez seja por isso que encontrar o centro seja diferente de encontrar equilíbrio.
O equilíbrio pode mudar a cada circunstância.
O centro oferece orientação para que possamos construir novos equilíbrios.
Depois de voltar para casa
Talvez exista uma continuidade entre esta reflexão e a jornada de retorno.
Podemos passar muito tempo procurando uma casa no mundo.
Até começarmos a descobrir que também precisamos construir um lugar dentro de nós ao qual seja possível retornar.
Mas então surge outra pergunta:
o que existe no centro dessa casa?
Porque não basta voltar para dentro.
Também precisamos descobrir o que governa quando chegamos lá.
Medo?
Aprovação?
Controle?
Ressentimento?
Desejo?
Valores?
Caráter?
Consciência?
Talvez uma vida integrada não seja aquela em que finalmente colocamos todas as partes em silêncio.
Talvez seja aquela em que conseguimos ouvi-las sem esquecer quem deve decidir a direção.
E talvez essa seja uma das formas mais profundas de ordem:
não eliminar o caos,
não interromper o ritmo,
não escolher apenas um dos polos,
mas construir dentro de nós algo capaz de atravessar tudo isso sem perder completamente a direção.
Ter um centro não significa parar de oscilar.
Significa não precisar perder a si mesmo toda vez que a vida se move.
Mecânica da Alma
A consciência não é uma conquista. É uma prática.


Deixe um comentário