Não podemos impedir que aquilo que amamos mude, envelheça ou um dia termine. Mas podemos escolher estar presentes enquanto ainda está aqui.
Há músicas que parecem dizer alguma coisa diferente dependendo do momento da vida em que as encontramos.
Don’t Let the Devil Take Another Day, do Stereophonics, produz em mim uma sensação muito particular.
Não apenas a ideia de não permitir que a negatividade roube mais um dia.
Mas algo mais simples.
E talvez mais difícil.
Não deixe que este dia passe sem que você esteja nele.
Porque enquanto pensamos no amanhã, alguma coisa está acontecendo agora.
Alguém que amamos está sentado perto de nós.
Um filho ainda possui a idade que possui hoje.
Nossos pais ainda podem estar disponíveis para uma conversa.
Nosso corpo ainda consegue fazer determinadas coisas.
Existe uma música que ainda podemos ouvir.
Uma estrada que ainda podemos percorrer.
Um abraço que ainda pode ser dado.
E, silenciosamente, tudo isso está mudando.
O tempo não precisa de nossa permissão
Existe algo desconcertante no tempo.
Ele continua.
Independentemente de estarmos preparados.
Independentemente de termos percebido.
Independentemente de termos aproveitado.
Podemos pedir mais cinco minutos.
Podemos desejar voltar.
Podemos fotografar.
Registrar.
Guardar objetos.
Contar histórias.
Mas nenhuma dessas coisas consegue fazer um momento permanecer.
A infância termina.
As pessoas envelhecem.
Os lugares mudam.
Relacionamentos atravessam fases.
Nosso corpo se transforma.
Algumas possibilidades desaparecem.
Outras surgem.
E até aquilo que permanece nunca permanece exatamente da mesma maneira.
Talvez uma das dificuldades de viver seja aceitar que amar alguma coisa também significa aceitar que não podemos congelá-la.
A impermanência não diminui o valor
À primeira vista, saber que algo terminará pode parecer uma ameaça ao seu significado.
Se não vai durar, por que nos entregar?
Se um momento vai desaparecer, por que atribuir tanto valor a ele?
Mas talvez aconteça justamente o contrário.
Imagine que pudéssemos repetir infinitamente determinada experiência.
O mesmo almoço.
A mesma viagem.
A mesma conversa.
O mesmo abraço.
A mesma manhã.
Sempre disponível.
Sempre recuperável.
Sempre esperando por nós.
Talvez, depois de algum tempo, começássemos a dizer:
“Faço amanhã.”
Porque amanhã estaria garantido.
Parte daquilo que torna alguns momentos preciosos talvez seja justamente sua impossibilidade de repetição perfeita.
Uma criança nunca terá novamente exatamente aquela idade.
Uma conversa nunca acontecerá novamente entre exatamente aquelas duas versões das pessoas que estavam ali.
Até quando retornamos ao mesmo lugar, alguma coisa mudou.
O lugar.
Nós.
Ou ambos.
Impermanência não significa insignificância.
Algumas coisas são preciosas justamente porque não podem ser possuídas para sempre.
Existem duas maneiras de perder um momento
A primeira é inevitável.
O momento termina.
A conversa acaba.
A viagem chega ao fim.
O filho cresce.
A visita termina.
O domingo vira segunda-feira.
A música chega à última nota.
Não há consciência capaz de impedir isso.
Mas existe uma segunda perda.
E essa talvez esteja mais sob nosso alcance.
O momento aconteceu, mas nós não estávamos realmente nele.
O corpo estava à mesa.
A mente estava amanhã.
A pessoa falava.
Nós preparávamos mentalmente a resposta.
O filho brincava.
Nós olhávamos para o telefone.
A paisagem passava pela janela.
Nós pensávamos no problema que precisaríamos resolver quando chegássemos.
A vida estava acontecendo.
Mas nossa consciência estava sempre em outro lugar.
Talvez não possamos impedir a primeira perda.
Mas podemos diminuir enormemente a segunda.
O amanhã também pode roubar o hoje
Pensar no futuro é uma das capacidades mais extraordinárias que possuímos.
Planejamos.
Construímos.
Antecipamos riscos.
Criamos projetos.
Abrimos mão de prazeres imediatos para construir alguma coisa maior.
Não há nada de errado nisso.
O problema começa quando o futuro deixa de ser um lugar para o qual caminhamos e se transforma no lugar onde acreditamos que finalmente começaremos a viver.
Quando eu resolver isso…
Quando tiver mais dinheiro…
Quando emagrecer…
Quando trocar de emprego…
Quando terminar este projeto…
Quando os problemas diminuírem…
Quando tiver mais tempo…
Então descansarei.
Então viajarei.
Então estarei presente.
Então aproveitarei minha família.
Então farei aquilo de que gosto.
Mas o futuro possui uma característica perigosa:
quando chega, recebe outro nome.
Hoje.
E se não aprendemos a habitar o hoje, provavelmente levaremos para amanhã a mesma ausência que carregamos agora.
O passado também sabe ocupar uma cadeira à mesa
Nem sempre estamos ausentes porque pensamos no futuro.
Às vezes continuamos vivendo em alguma coisa que já terminou.
Uma conversa que gostaríamos de refazer.
Uma decisão que tomaríamos de outra maneira.
Uma injustiça.
Uma perda.
Uma oportunidade desperdiçada.
Uma versão de nós mesmos que já não existe.
O passado merece ser compreendido.
Algumas experiências precisam ser revisitadas.
Elaboradas.
Integradas.
Mas existe uma diferença entre visitar o passado para compreendê-lo e continuar morando nele.
Porque enquanto repetimos internamente aquilo que não podemos mais alterar, alguma coisa diante de nós continua acontecendo.
E talvez alguém que está conosco hoje esteja recebendo apenas uma pequena parte da presença que ainda estamos oferecendo a ontem.
Presença não significa aproveitar cada segundo
Quando percebemos a impermanência, surge facilmente outra armadilha.
“Preciso aproveitar cada segundo.”
Parece uma frase bonita.
Mas pode rapidamente transformar-se em cobrança.
Preciso estar feliz.
Preciso criar memórias.
Preciso tornar este dia especial.
Preciso aproveitar minha família.
Preciso sentir gratidão.
Preciso viver intensamente.
E, de repente, até estar presente vira mais uma tarefa.
Talvez presença seja algo muito menos espetacular.
Não precisamos transformar cada instante em uma experiência memorável.
A maior parte da vida não acontece em grandes viagens, celebrações ou acontecimentos extraordinários.
Ela acontece em dias comuns.
Na cozinha.
No carro.
Durante uma caminhada.
Em uma conversa aparentemente banal.
Enquanto alguém prepara café.
Durante um treino.
No caminho de volta para casa.
Em alguns minutos de silêncio ao lado de alguém.
Talvez presença não seja pensar:
“Este momento precisa ser extraordinário.”
Talvez seja conseguir perceber:
“Este momento está acontecendo.”
Há coisas que só percebemos quando desaparecem
Algumas ausências revelam retrospectivamente o valor daquilo que parecia comum.
Uma voz que costumávamos ouvir.
Um lugar que frequentávamos.
Uma rotina que reclamávamos de repetir.
Uma pessoa que sempre estava ali.
Um corpo que realizava determinado movimento sem dificuldade.
Um filho que entrava no quarto sem bater.
Um cachorro esperando junto à porta.
Uma cadeira ocupada à mesa.
Enquanto essas coisas existem, facilmente se misturam à paisagem cotidiana.
Parecem permanentes.
Até deixarem de ser.
Talvez uma das formas mais profundas de gratidão seja aprender a perceber algumas dessas coisas antes que a ausência precise nos ensinar seu valor.

Não para vivermos antecipando a perda.
Mas justamente para não precisarmos da perda para perceber a presença.
O medo de perder também pode nos roubar
Quando compreendemos que alguma coisa é preciosa, podemos cair no extremo oposto.
Começamos a temer sua perda.
E então tentamos protegê-la.
Controlá-la.
Garantir sua permanência.
Antecipar aquilo que poderia acontecer.
Uma relação importante passa a ser acompanhada pelo medo de que termine.
A saúde passa a ser acompanhada pelo medo da doença.
O envelhecimento dos pais passa a ser acompanhado pela antecipação da ausência.
O crescimento dos filhos desperta saudade enquanto eles ainda estão diante de nós.
Existe uma crueldade silenciosa nisso:
podemos começar a sofrer antecipadamente pela ausência de algo que ainda está presente.
E assim a impermanência consegue nos roubar duas vezes.
Primeiro pelo medo.
Depois, algum dia, pela perda real.
Talvez amar plenamente exija uma coragem particular:
reconhecer que algo pode terminar sem permitir que essa consciência nos impeça de vivê-lo enquanto existe.
Estar presente também é estar disponível
Podemos estar no mesmo lugar e ainda assim não estar disponíveis.
Isso acontece quando toda conversa precisa competir com alguma preocupação.
Quando ouvimos apenas o suficiente para responder.
Quando estamos sempre realizando duas coisas ao mesmo tempo.
Quando aquilo que amamos recebe apenas o espaço que sobra depois de todas as urgências.
Presença não é apenas proximidade física.
É disponibilidade de atenção.
Às vezes, amar alguém pode significar algo tão simples quanto permitir que aquela pessoa tenha, por alguns minutos, a nossa consciência inteira.
Sem telefone.
Sem preparar uma resposta.
Sem tentar resolver imediatamente.
Sem desejar que a conversa termine para retomarmos alguma tarefa.
Apenas estar.
Talvez alguns dos momentos mais importantes de uma vida nunca pareçam importantes enquanto acontecem.
O ordinário é onde passamos quase toda a vida
Existe uma tendência natural de dividir nossa existência entre momentos importantes e momentos comuns.
Casamentos.
Nascimentos.
Formaturas.
Viagens.
Conquistas.
Esses acontecimentos tornam-se marcos.
Mas, se observarmos cuidadosamente, perceberemos que eles representam uma parcela muito pequena do tempo que recebemos.
A maior parte da vida acontece entre os marcos.
Nas terças-feiras.
Nos trajetos.
Nas refeições.
Nos pequenos rituais.
Nas conversas sem assunto definido.
Nos períodos em que aparentemente nada extraordinário está acontecendo.
Talvez esperar apenas pelos grandes acontecimentos para sentir que estamos vivendo seja uma maneira silenciosa de desperdiçar grande parte da existência.
Porque aquilo que chamamos de cotidiano não é o intervalo entre os momentos importantes.
O cotidiano é a própria vida em sua forma mais frequente.
Não precisamos viver antecipadamente o luto
Reconhecer a impermanência não significa olhar para tudo pensando:
“Um dia isso acabará.”
Isso seria apenas outra forma de ausência.
A consciência da finitude não deveria transformar cada encontro em despedida.
Talvez sua função seja justamente a contrária.
Fazer com que uma conversa seja uma conversa.
Um abraço seja um abraço.
Uma caminhada seja uma caminhada.
Uma tarde seja uma tarde.
Sem exigir que o momento permaneça.
Sem precisar convertê-lo imediatamente em memória.
Sem observá-lo de fora enquanto pensamos em quanto sentiremos falta dele algum dia.
Há uma diferença entre saber que algo terminará e viver como se já estivesse terminando.
A presença conhece a impermanência.
Mas permanece do lado da vida.
Isto ainda está aqui
Talvez exista uma pequena prática escondida dentro de toda essa reflexão.
De vez em quando, interromper o movimento automático e olhar ao redor.
Não para avaliar.
Não para fotografar.
Não para publicar.
Apenas perceber.
Isto ainda está aqui.
Esta pessoa.
Este corpo.
Esta casa.
Esta possibilidade.
Esta conversa.
Esta manhã.
Esta música.
Esta fase da vida.
Talvez amanhã alguma dessas coisas continue exatamente onde está.
Talvez mude.
Não sabemos.
Mas agora existe.
E nós também.
Antes que este dia termine
Não podemos impedir que o tempo leve este dia.
Ele levará.
Como levou ontem.
Como levará amanhã.
Não podemos impedir todas as mudanças.
Não podemos preservar todas as pessoas.
Não podemos repetir todas as experiências.
Não podemos transformar a vida em algo permanente.
Mas existe uma diferença entre um dia que terminou
e um dia que passou por nós sem que estivéssemos nele.
Talvez essa seja uma das respostas possíveis para a impermanência.
Não vencê-la.
Não fugir dela.
Não tentar congelar aquilo que amamos.
Estar presente enquanto existe.
Porque a presença não vence a impermanência.
Ela impede que a impermanência leve também aquilo que poderíamos ter vivido.
Antes que este dia termine,
talvez valha olhar para aquilo que ainda está diante de nós e reconhecer:
Isto ainda está aqui.
Eu ainda estou aqui.
Então que este dia seja vivido antes de terminar.
Mecânica da Alma
A consciência não é uma conquista. É uma prática.


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