Sobre crescer, assumir o volante e não abandonar aquilo que ainda pode nos ensinar.
Quando eu era criança, havia uma música que cantávamos na catequese.
A letra era simples.
Dizia que somente entraria no céu quem fosse como uma criança.
Naquela época, talvez houvesse algo curioso que eu ainda não tinha condições de perceber:
eu cantava sobre a necessidade de me tornar aquilo que já era.
Eu era a criança.
Não precisava recuperar a curiosidade.
Não precisava reaprender a brincar.
Não precisava me lembrar de olhar para o mundo com encantamento.
Também não precisava refletir sobre aquilo que significava depender de alguém.
Grande parte da minha vida dependia dos adultos ao meu redor.
Eu simplesmente vivia.
Décadas depois, aquela passagem bíblica produz em mim uma pergunta completamente diferente.
O que significa para um adulto tornar-se como uma criança?
Talvez a resposta não esteja em voltar.
Talvez esteja em descobrir aquilo que não precisava ter sido deixado para trás.
A criança no centro
Em determinado momento dos Evangelhos, os discípulos perguntam a Jesus quem seria o maior no Reino dos Céus.
É uma pergunta sobre grandeza.
Posição.
Importância.
Jesus responde colocando uma criança no meio deles.
Existe algo provocador nessa imagem.
Adultos discutindo quem ocuparia a posição mais elevada.
E uma criança sendo colocada no centro.
Talvez seja tentador interpretar essa passagem apenas como um elogio à inocência infantil.
Mas crianças não são seres perfeitos.
Elas podem ser impulsivas.
Podem agir movidas pelo desejo imediato.
Ainda estão aprendendo a lidar com frustrações, limites, responsabilidades e consequências.
Confiam porque ainda não desenvolveram completamente o discernimento.
Dependem porque ainda não possuem autonomia.
Por isso, talvez “tornar-se como criança” não signifique abandonar a maturidade.
Talvez signifique questionar algumas coisas que aprendemos a chamar de maturidade.
A necessidade de parecer forte o tempo inteiro.
A vergonha de precisar de alguém.
A dificuldade de admitir que não sabemos.
O medo de demonstrar entusiasmo.
A necessidade de controlar tudo.
O cinismo que confundimos com experiência.
A incapacidade de nos maravilhar porque já vimos coisas demais.
Talvez algumas dessas características não sejam sinais de que crescemos.
Talvez sejam apenas sinais de que, em algum momento, aprendemos a nos proteger.
Eu também queria crescer
Existe uma lembrança que me ajuda a compreender isso.
Quando criança, eu gostava de andar de carro olhando pela janela.
Havia alguma coisa especial em observar o mundo passando.
Casas.
Ruas.
Pessoas.
Árvores.
Outros carros.
Lugares que eu não conhecia.
Talvez uma estrada que desaparecesse depois de uma curva.
Eu não precisava saber exatamente onde estávamos.
Havia alguém dirigindo.
Minha função podia ser simplesmente olhar.
Mas existe outro detalhe importante nessa lembrança.
Eu não via a hora de poder dirigir também.
A criança que gostava de olhar pela janela não desejava permanecer para sempre naquele banco.
Ela queria crescer.
Queria assumir o volante.
Queria experimentar aquilo que os adultos faziam.
Queria descobrir como seria escolher uma direção em vez de apenas acompanhar o caminho.
E talvez isso seja importante quando falamos sobre nossa criança interior.
Não precisamos transformar a infância em um lugar perfeito do qual nunca deveríamos ter saído.
Crescer também é uma conquista.
A autonomia importa.
Aprender a tomar decisões importa.
Desenvolver discernimento importa.
Assumir responsabilidade pela própria vida importa.
Existem coisas que somente conseguimos fazer porque crescemos.
O problema não foi assumir o volante.
Talvez o problema comece quando acreditamos que, para dirigir, precisamos esquecer completamente como era olhar pela janela.

O adulto aprende a dirigir
Hoje sabemos coisas que aquela criança não sabia.
Sabemos que um carro precisa de combustível.
Que existem contas.
Manutenção.
Pedágios.
Imprevistos.
Sabemos que algumas estradas são perigosas.
Que nem toda ultrapassagem deve ser feita.
Que existem momentos em que precisamos diminuir a velocidade.
Que dirigir cansado pode ser perigoso.
Que escolher uma estrada significa deixar outras para trás.
A experiência nos ensina a antecipar consequências.
E isso é valioso.
Na vida acontece algo parecido.
Aprendemos que algumas pessoas podem nos decepcionar.
Que determinadas escolhas têm custos.
Que boas intenções não garantem bons resultados.
Que nem todo desejo deve ser seguido imediatamente.
Que existem responsabilidades que não desaparecem apenas porque estamos cansados.
Que precisamos estabelecer limites.
Que precisamos aprender a dizer não.
Que não podemos entregar nossa vida inteira ao acaso.
Tudo isso pertence à maturidade.
Mas existe um risco.
Podemos ficar tão concentrados em dirigir corretamente que deixamos de perceber a paisagem.
O adulto olha para o trânsito.
Para o relógio.
Para o combustível.
Para o GPS.
Para o destino.
A criança olha pela janela.
E pergunta:
“Você viu aquilo?”
Talvez ela ainda veja coisas que não vemos
A criança percebe uma montanha ao longe.
Uma nuvem com um formato estranho.
Uma casa diferente.
Um cachorro colocando a cabeça para fora da janela de outro carro.
Uma estrada pequena que desaparece entre as árvores.
E pergunta:
“Para onde será que aquela estrada vai?”
O adulto talvez responda:
“Não sei.”
E continue dirigindo.
Mas talvez exista alguma sabedoria naquela pergunta.
Não necessariamente porque precisamos abandonar nossa rota e entrar em todas as estradas que despertam curiosidade.
Mas porque ainda somos capazes de perceber que existem caminhos que desconhecemos.
A curiosidade não precisa dirigir.
Mas talvez mereça participar da viagem.
O encantamento não precisa decidir nossas escolhas.
Mas talvez possa impedir que transformemos a vida apenas numa sucessão de obrigações.
A espontaneidade não precisa assumir o controle das nossas atitudes.
Mas talvez possa nos lembrar de que nem tudo precisa ser planejado.
A confiança não precisa ignorar o discernimento.
Mas talvez possa impedir que nossas experiências difíceis transformem prudência em desconfiança permanente.
Talvez a criança ainda possua algumas perguntas que o adulto deixou de fazer.
Ser o adulto de que minha criança precisa
Há uma imagem que tem me ajudado:
ser o adulto de que minha criança interna precisa.
Gosto dela porque não exige que eu volte a ser criança.
Também não exige que eu entregue a ela o controle da minha vida.
Uma criança assustada pode precisar ouvir:
“Eu sei que você está com medo.”
Mas talvez também precise ouvir:
“Agora você não está sozinho diante disso.”
Uma criança curiosa precisa de espaço para experimentar.
Mas também precisa de alguém capaz de reconhecer perigos que ela ainda não consegue enxergar.
Uma criança frustrada precisa aprender que nem sempre receberá aquilo que deseja.
Mas não precisa aprender que desejar é vergonhoso.
Uma criança que não foi escolhida pode sentir que existe algo errado com ela.
O adulto pode ajudá-la a descobrir que seu valor não depende de ser escolhido por todos.
Uma criança pode precisar de proteção.
Mas proteção não significa impedir que ela viva.
E talvez seja justamente aqui que nossa relação com a criança interior possa se tornar complicada.

Quando proteção vira prisão
Depois de algumas experiências dolorosas, podemos desenvolver um adulto extremamente eficiente em evitar novas feridas.
Ele aprende.
Observa.
Antecipa.
Controla.
E começa a dizer:
Não tente, porque pode dar errado.
Não confie, porque podem decepcioná-lo.
Não demonstre demais, porque podem rejeitá-lo.
Não dependa de ninguém.
Não espere muito.
Não sonhe tanto.
Não se entusiasme antes da hora.
Esse adulto acredita estar protegendo a criança.
E talvez esteja.
Mas, em algum momento, a proteção pode se transformar numa prisão.
Construímos uma fortaleza para que ninguém consiga entrar.
E então percebemos que nós também temos dificuldade para sair.
Talvez nossa criança interior não precise de um adulto que elimine todos os riscos.
Precise de alguém capaz de construir uma casa.
Uma casa possui portas.
Janelas.
Limites.
Proteção.
Mas continua permitindo que o mundo seja visto.
Uma casa protege sem precisar se transformar numa fortaleza.
Talvez precisemos aprender a fazer o mesmo dentro de nós.
Quem deve dirigir?
Existe uma maneira simples de imaginar essa relação.
A criança não precisa assumir o volante.
Mas também não precisa viajar trancada no porta-malas.
O adulto dirige.
Ele possui experiência.
Conhece algumas regras.
Consegue antecipar determinados riscos.
É responsável pelas escolhas.
Sabe que liberdade também produz consequências.
Mas a criança continua no carro.
Pode olhar pela janela.
Pode fazer perguntas.
Pode se surpreender.
Pode dizer que está cansada.
Pode pedir para parar um pouco.
Pode perceber alguma coisa que o motorista não percebeu.
E talvez exista uma pergunta que o adulto precise fazer de vez em quando:
“Você viu alguma coisa que eu não vi?”
Não para obedecer a todos os impulsos.
Mas para não permitir que responsabilidade se transforme em rigidez.
Talvez amadurecer seja justamente aprender quem deve dirigir sem decidir quem deve desaparecer.

Crescer sem abandonar
Talvez agora eu compreenda aquela música da catequese de uma maneira diferente.
Quando criança, eu cantava que o Reino pertencia aos pequeninos.
Hoje não sou mais aquele menino.
Aprendi coisas que ele ainda não sabia.
Cometi erros que ele ainda não tinha cometido.
Conheci perdas que ele ainda não conhecia.
Assumi responsabilidades que ele não poderia assumir.
Descobri que algumas pessoas permanecem e outras partem.
Que existem escolhas sem garantia.
Que nem sempre conseguimos compreender aquilo que acontece conosco.
Que algumas respostas demoram.
E que outras talvez nunca cheguem.
Não gostaria de devolver tudo isso para recuperar a infância.
A experiência também faz parte de quem me tornei.
Mas talvez eu possa perguntar:
O que aquela criança possuía que ainda merece espaço na minha vida?
Curiosidade?
Capacidade de se maravilhar?
Disposição para perguntar sem vergonha de não saber?
Facilidade para reconhecer que precisa de alguém?
Vontade de experimentar?
Esperança?
Talvez amadurecer não seja escolher entre ser adulto ou preservar a criança.
Talvez seja integrar aquilo que existe de valioso nos dois.
Tornar-se como criança
Talvez “tornar-se como criança” não seja um convite para voltar no tempo.
Nem para abandonar discernimento, responsabilidade ou autonomia.
Pode ser um convite para reconhecer aquilo que o crescimento acrescentou e aquilo que, desnecessariamente, deixamos pelo caminho.
Podemos recuperar a curiosidade sem abandonar o discernimento.
A confiança sem abandonar os limites.
A espontaneidade sem entregar nossas escolhas ao impulso.
O encantamento sem negar a realidade.
A capacidade de depender sem transformar dependência em submissão.
A humildade de perguntar sem sentir vergonha de ainda não saber.
Talvez seja possível crescer sem endurecer.
Talvez seja possível conhecer a realidade sem perder completamente a capacidade de se surpreender com ela.
Talvez seja possível assumir responsabilidades sem transformar a vida inteira em responsabilidade.
E talvez seja possível dirigir sem passar o caminho inteiro olhando apenas para o destino.
Quando a criança olha pela janela
Às vezes imagino novamente aquela cena.
Um carro seguindo pela estrada.
O adulto está ao volante.
A criança olha pela janela.
Durante muito tempo, talvez tenhamos acreditado que amadurecer significava deixar aquela criança para trás.
Hoje prefiro outra imagem.
Ela continua conosco.
Não para decidir cada direção.
Não para nos impedir de crescer.
Não para nos devolver a um passado idealizado.
Ela está ali para nos lembrar de algumas coisas que podemos esquecer enquanto dirigimos.
Que ainda existem paisagens.
Que existem estradas que desconhecemos.
Que podemos fazer perguntas.
Que não precisamos compreender tudo imediatamente.
Que algumas coisas continuam sendo bonitas mesmo quando não possuem utilidade.
Que podemos precisar de alguém sem perder nossa dignidade.
E que, de vez em quando, talvez valha a pena diminuir a velocidade apenas para olhar.
A criança que eu fui queria crescer.
Queria dirigir.
Um dia conseguiu.
Talvez agora exista outra tarefa.
Crescer me colocou ao volante.
Amadurecer talvez seja não esquecer quem ainda olha pela janela.
Não quero voltar a ser a criança que fui.
Quero me tornar o adulto de que aquela criança precisaria — sem apagar aquilo que ela ainda pode me ensinar.
Talvez seja essa uma das maneiras possíveis de compreender o antigo convite:
tornar-se como criança não para voltar ao começo, mas para continuar crescendo sem abandonar tudo aquilo que ainda nos mantém vivos por dentro.
Mecânica da Alma
A consciência não é uma conquista. É uma prática.


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