Em 1986, “Eu me amo” parecia apenas uma brincadeira. Décadas depois, descobri que algumas palavras chegam muito antes de estarmos preparados para compreendê-las.

Eu tinha 12 anos.

Era 1986.

Nos finais de semana, um vizinho costumava colocar o aparelho de som no portão de casa. Era um daqueles 3 em 1 que reuniam rádio, toca-discos e toca-fitas e que, para quem viveu aquela época, talvez sejam capazes de trazer uma década inteira de volta apenas pela lembrança.

A música saía de uma casa e ocupava a rua.

E a rua também era nossa.

Jogávamos futebol. Corríamos. Conversávamos. Inventávamos brincadeiras. Entrávamos em casa e voltávamos para fora sem que alguém precisasse organizar aquele encontro.

A vida simplesmente acontecia.

Crianças brincando e jogando futebol em uma rua de bairro nos anos 1980, com bicicleta e aparelho de som junto ao portão.

Entre as músicas que tocavam, havia algumas do Ultraje a Rigor.

E uma delas sempre me chamava atenção.

“Eu me amo.”

Para mim, naquela época, aquilo era praticamente uma brincadeira.

Uma música irreverente. Engraçada. Talvez até um pouco absurda.

Amor próprio?

Eu nem sabia o que era isso.


Algumas lembranças não pedem explicação

Não sei dizer por que algumas cenas permanecem enquanto tantas outras desaparecem.

Certamente vivi centenas de tardes parecidas.

Joguei muitas outras partidas de futebol.

Ouvi milhares de músicas depois daquela.

Conheci pessoas, trabalhei, casei, tive filhos, enfrentei dificuldades, realizei coisas, fracassei em outras, mudei de opinião inúmeras vezes.

Décadas se passaram.

Mas, por algum motivo, ainda consigo voltar àquela rua.

Ao portão.

Ao aparelho de som.

Àquela música.

Talvez a memória não guarde apenas aquilo que compreendemos.

Talvez ela também preserve algumas coisas que ainda precisaremos compreender.

Como se determinadas experiências permanecessem silenciosamente dentro de nós, esperando que a vida construa o significado que ainda não possuímos.

A música não mudou.

Quem mudou fui eu.


Algumas palavras chegam cedo demais

Aos 12 anos, eu conhecia o significado das palavras “eu”, “me” e “amo”.

Mas conhecer as palavras não significa compreender aquilo que elas dizem quando são colocadas juntas.

Eu me amo.

Hoje percebo o tamanho dessa afirmação.

Na infância, porém, não havia em mim experiência suficiente para alcançá-la.

E talvez seja assim com muitas coisas.

Ouvimos nossos pais dizerem algo que só entenderemos quando tivermos filhos.

Alguém nos fala sobre saudade antes de conhecermos uma ausência verdadeira.

Escutamos conselhos sobre limites quando ainda acreditamos que amar significa estar sempre disponível.

Alguém fala sobre descanso quando ainda estamos tentando provar nosso valor pelo que conseguimos fazer.

Existem palavras que chegam primeiro.

A compreensão vem depois.

Às vezes, muito depois.

Crianças brincando em uma rua de bairro ao entardecer, enquanto pessoas se reúnem em uma garagem, em uma cena inspirada nos anos 1980.

Quase quarenta anos depois

Foi já perto dos 50 anos, durante um processo de terapia, que comecei a compreender o peso daquela expressão.

Amor próprio.

Curiosamente, aquilo que aos 12 anos parecia quase uma piada passou a tocar uma questão central da minha vida.

E descobri que amor próprio não tinha muito a ver com a imagem que eu poderia ter formado quando menino.

Não significava admirar a própria imagem diante do espelho.

Não significava considerar-se melhor do que os outros.

Não significava egoísmo.

Muito menos transformar a própria vontade na medida de todas as coisas.

Comecei a perceber algo mais difícil.

Amar a si mesmo também exige coragem.

Porque, em muitos momentos, é justamente diante do medo de perder alguma coisa que descobrimos o quanto conseguimos permanecer ao nosso próprio lado.


Talvez amor próprio seja permanecer

Hoje eu não tentaria resumir amor próprio em uma definição perfeita.

Mas consigo reconhecê-lo em alguns movimentos.

Está em conseguir dizer não quando um sim significaria abandonar algo importante em nós.

Está em reconhecer nossos erros sem concluir que somos os nossos erros.

Está em aceitar que alguém pode não nos escolher sem transformar essa escolha em medida do nosso valor.

Está em cuidar do corpo não apenas porque queremos determinada aparência, mas porque é nele que nossa vida acontece.

Está em descansar sem acreditar que precisamos produzir o tempo inteiro para merecer nosso lugar no mundo.

Está em pedir ajuda sem transformar necessidade em humilhação.

Está em estabelecer limites sem precisar transformar todas as fronteiras em muros.

E também está em amar outras pessoas sem exigir que elas carreguem a responsabilidade de nos convencer de que somos dignos de amor.

Talvez eu consiga dizer hoje de uma maneira que aquele menino ainda não conseguiria:

Amor próprio é aprender a não abandonar a si mesmo para continuar pertencendo à própria vida.


Isso não significa colocar-se sempre em primeiro lugar

Existe uma versão de amor próprio que às vezes parece uma disputa.

Escolha você.

Priorize você.

Afaste quem incomoda.

Não aceite nada.

Coloque-se sempre em primeiro lugar.

Há situações em que precisamos realmente nos afastar. Há relações que exigem limites. Há momentos em que dizer não é indispensável.

Mas não acredito que amar a si mesmo signifique transformar o mundo inteiro em adversário.

Porque também existe amor próprio em cumprir uma responsabilidade quando seria mais confortável fugir.

Em reconhecer que machucamos alguém.

Em pedir desculpas.

Em permanecer numa conversa difícil.

Em abrir mão de uma vontade porque existe algo maior que ela.

Em cuidar de quem amamos.

Em aceitar que nem toda frustração é uma violência contra nós.

Amor próprio não precisa nos colocar acima das outras pessoas.

Talvez ele apenas nos impeça de desaparecer embaixo delas.


O estranho encontro entre dois homens

Quando volto mentalmente àquela rua de 1986, acontece algo curioso.

Vejo um menino de 12 anos ouvindo uma música sem compreender exatamente o que ela dizia.

Mas quem observa aquela cena agora é um homem com mais de 50.

Somos a mesma pessoa.

E não somos.

O menino ainda não conhecia muitas das coisas que o homem conheceria.

Não sabia quais pessoas encontraria.

Não conhecia suas futuras responsabilidades.

Não sabia quais sonhos realizaria nem quais precisaria abandonar.

Não conhecia algumas dores.

Também não conhecia algumas alegrias.

Não sabia que um dia entraria em uma sala de terapia e começaria a olhar para dentro de si com perguntas que provavelmente nem conseguiria formular naquela época.

E certamente não imaginava que, décadas depois, estaria escrevendo sobre aquela tarde.

Mas alguma coisa daquele menino permaneceu.

Talvez seja justamente por isso que certas lembranças nos emocionem.

Não estamos apenas lembrando do passado.

Estamos encontrando versões anteriores de nós mesmos.


Eu não preciso ensinar nada àquele menino

Existe uma tentação quando olhamos para trás com a consciência que possuímos hoje.

Querer corrigir quem fomos.

“Você deveria ter percebido.”

“Deveria ter feito diferente.”

“Não deveria ter acreditado nisso.”

“Precisava ter se valorizado mais.”

Mas isso seria exigir daquele menino uma sabedoria que somente a vida poderia lhe dar.

Ele não precisava compreender amor próprio aos 12 anos.

Precisava jogar futebol.

Ouvir música.

Correr pela rua.

Rir da letra.

Viver aquela tarde.

Talvez o significado não pertencesse àquele momento.

Pertencia ao futuro.

E isso muda a maneira como olho para minha própria história.

Não preciso voltar até aquele menino para ensiná-lo.

Posso apenas me aproximar dele e dizer:

“Você não entendeu tudo naquela época. Tudo bem. Eu estou começando a entender agora.”


O passado também pode nos entregar alguma coisa

Costumamos imaginar que somos nós que voltamos às lembranças.

Mas algumas vezes tenho a impressão de que são elas que voltam até nós.

Uma música toca.

Um cheiro aparece.

Encontramos uma fotografia.

Passamos novamente por uma rua.

Alguém diz uma frase.

E, de repente, uma cena que parecia esquecida reaparece.

Talvez nem toda lembrança esteja pedindo que retornemos ao passado.

Algumas podem estar apenas trazendo alguma coisa dele.

Uma pergunta.

Uma reconciliação.

Uma compreensão.

Um pedaço de nós.

Por isso, memória e nostalgia não precisam significar desejo de voltar.

Podem significar simplesmente:

“Agora consigo enxergar aquilo que antes eu apenas vivi.”


A música continuou tocando

Há algo que me diverte quando penso nisso.

A banda provavelmente queria provocar.

O menino ouviu e achou engraçado.

A vida seguiu.

Quase quarenta anos depois, a mesma frase encontrou outro homem.

Eu me amo.

Mas agora ela já não soa como brincadeira.

Também não soa como uma declaração triunfal.

Para mim, tornou-se quase uma pergunta.

Eu consigo permanecer ao meu lado quando erro?

Quando sou rejeitado?

Quando não consigo controlar o resultado?

Quando alguém estabelece um limite?

Quando preciso estabelecer o meu?

Quando meu corpo pede cuidado?

Quando não estou produzindo?

Quando aquilo que desejo não acontece?

Quando preciso desistir de alguma coisa sem concluir que fracassei?

Talvez seja fácil dizer “eu me amo” quando tudo está funcionando.

A frase ganha outra profundidade quando a vida pergunta:

“E quando não estiver?”


Algumas sementes levam décadas

Talvez aquela música nunca tenha sido uma mensagem destinada a mim.

Era apenas uma música tocando no portão de um vizinho.

E gosto dessa possibilidade.

Não preciso transformar a lembrança em destino para reconhecer o significado que ela ganhou.

A vida é cheia dessas coincidências.

Coisas pequenas que atravessam nosso caminho e que, muitos anos depois, encontram uma experiência capaz de iluminá-las.

Uma frase.

Um livro.

Uma música.

Uma conversa.

Uma pessoa.

Às vezes compreendemos imediatamente.

Outras vezes, alguma coisa fica guardada.

Não porque já saibamos o que significa.

Mas talvez porque ainda não saibamos.

Algumas sementes levam décadas para encontrar a estação certa.


Se eu pudesse voltar àquela rua

Não explicaria amor próprio ao menino.

Provavelmente estragaria a partida de futebol.

Talvez eu apenas me sentasse por alguns minutos na calçada.

Ouvisse o aparelho de som tocando no portão.

Observasse aqueles garotos correndo atrás da bola.

E deixasse a música tocar.

Porque agora sei uma coisa que ele ainda não precisava saber:

a vida levaria aquele menino por muitos lugares antes que aquelas palavras encontrassem significado.

E talvez esse seja um dos privilégios de envelhecer.

Não apenas acumular anos.

Mas poder voltar a certas lembranças carregando uma consciência que ainda não existia quando elas aconteceram.

Hoje, quando penso naquela música, já não escuto apenas a irreverência de uma banda dos anos 80.

Escuto também uma pergunta que atravessou quase quarenta anos para chegar até mim.

O que significa amar a si mesmo?

Ainda não tenho uma resposta definitiva.

Talvez nunca tenha.

Mas sei que a resposta não está em me colocar acima de ninguém.

Está em aprender a caminhar ao lado de mim mesmo.

Sem transformar meus erros em identidade.

Sem entregar meu valor às escolhas dos outros.

Sem fazer da independência um muro.

Sem abandonar meus limites para preservar relações.

Sem exigir perfeição para me considerar digno.

E sem esquecer que cuidar de mim também deve me tornar mais capaz — e não menos capaz — de amar aquilo que existe ao meu redor.

O menino não sabia de tudo isso.

Ele só ouvia música enquanto jogava bola na rua.

E talvez estivesse certo em fazer exatamente isso.

Quase quarenta anos depois, posso finalmente olhar para ele sem querer ensiná-lo.

Apenas sorrir.

A música continuou tocando.

Eu é que precisei de uma vida inteira para começar a ouvi-la.

Mecânica da Alma

A consciência não é uma conquista. É uma prática.


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